CV e ATS

Como fazer um CV sem experiência para o teu primeiro emprego

Um CV sem experiência profissional faz-se com o que já fizeste, pago ou não: estágios, projetos da faculdade, voluntariado, trabalhos de verão e formações. Organizas o CV para que a formação e essas atividades ocupem o lugar dos empregos, e escreves cada uma como um resultado.

Equipa CernoriaAtualizado a 21 de outubro de 202611 min de leitura

O essencial

  • Um CV sem experiência não tem um buraco: troca empregos por estágios, projetos, voluntariado, trabalhos de verão e formações, descritos pelo que fizeste e pelo que daí resultou.
  • A ordem muda: perfil curto, formação e depois a experiência prática, para que o mais forte fique na metade de cima da página.
  • Cada atividade escreve-se como uma conquista: um verbo, o que fizeste e um resultado concreto, mesmo que pequeno ou de um trabalho da faculdade.
  • Nada inventado nem exagerado: um CV de primeiro emprego é lido com atenção na entrevista, e cada linha tem de aguentar uma pergunta.

O que é um CV sem experiência e porque podes fazer um bom na mesma

Um CV sem experiência é o que preparas antes de teres tido um emprego a sério, ou quando o que fizeste não se parece com a função que procuras. Não é um CV vazio: mostra o que sabes fazer com outras provas. Quem recruta para um primeiro emprego, assistente administrativo, assistente de apoio ao cliente, operador de loja ou recém-licenciado num programa de trainees, não espera anos de percurso; procura sinais de que aprendes depressa, cumpres o que prometes e já puseste em prática algo do que estudaste.

Começar custa mais do que continuar, e os números confirmam-no. Segundo o Eurostat, em outubro de 2025 o desemprego dos menores de 25 anos era de 18,3 % em Portugal, contra 15,2 % na média da União Europeia. Por isso, o primeiro CV tem de trabalhar mais do que os seguintes: contar bem o pouco que há é o que te distingue das outras candidaturas à mesma oferta.

Nos Estados Unidos, o inquérito anual da NACE aos empregadores que contratam recém-licenciados coloca a experiência de estágio, na empresa ou no setor, entre os dois fatores que mais pesam na escolha entre dois candidatos parecidos. Um estágio curto, bem descrito, diz mais do que uma média sem contexto.

18,3 %

era a taxa de desemprego dos menores de 25 anos em Portugal em outubro de 2025, segundo o Eurostat.

Fonte: Eurostat, Euro area unemployment at 6.4% (desemprego jovem, outubro de 2025), dezembro de 2025
15,2 %

era a média da União Europeia para a mesma faixa etária no mesmo mês.

Fonte: Eurostat, Euro area unemployment at 6.4% (desemprego jovem, outubro de 2025), dezembro de 2025

O que conta como experiência quando nunca tiveste um emprego

Conta tudo o que fizeste com responsabilidade real, mesmo sem salário: uma tarefa com prazo, com outras pessoas ou para alguém que dependia do resultado. O Portal Europeu da Juventude vai mais longe com o voluntariado: no CV Europass, as atividades de voluntariado devem ser descritas na secção «Experiência profissional», e as competências adquiridas podem ser acrescentadas às competências pessoais.

Esta é a tabela que usamos na Cernoria para decidir onde fica cada coisa e como escrevê-la. Nenhuma linha diz «colaborei» ou «participei»: cada uma diz o que fizeste.

O que conta como experiência e como escrevê-lo
O que fizesteOnde ficaComo escreverExemplo
Estágio ou estágio curricularExperiênciaComo um emprego: entidade, datas e duas conquistas«Organizei 300 processos de clientes e criei o índice que a equipa ainda usa»
Projeto da faculdade ou teseExperiência ou projetosQue problema resolveste e com que ferramenta«Desenhei com o meu grupo um plano de marketing para uma padaria real do bairro»
VoluntariadoExperiênciaOrganização, função e um resultado mensurável«Coordenei uma recolha de material escolar para 120 crianças de duas escolas»
Trabalho de verão ou negócio de famíliaExperiênciaO que fazias e que responsabilidade tinhas, sem enfeitar«Fiquei com a caixa e o stock da mercearia da família durante dois verões»
Formações e certificaçõesFormaçãoNome, entidade, horas e o que sabes fazer«Excel intermédio (40 horas): tabelas dinâmicas e PROCV»
Associações, desporto ou núcleos de estudantesAtividadesA tua função e algo que conseguiste«Capitã da equipa de voleibol: organizei os treinos de 14 jogadoras»
Projetos pessoaisProjetosO que criaste, onde se pode ver e o que aprendeste«Montei uma loja online de teste com 20 produtos»
Os exemplos são inventados. Fica só com o que consegues contar com detalhe numa entrevista.

A ordem de um CV sem experiência, de cima para baixo

Com pouca experiência, a ordem conta mais do que nunca, porque o que se lê primeiro decide se se continua a ler. A regra é simples: em cima, o que mais te aproxima da função. Em quase todos os primeiros empregos isso é a formação e a experiência prática, não um percurso profissional que ainda não existe. O portal europeu do emprego EURES resume-o num conselho: indica competências em vez de funções desempenhadas.

  1. Contactos

    Nome, cidade, telemóvel, email e, se estiver cuidado, a ligação para o teu LinkedIn ou um portefólio. Um email com o teu nome, não o do secundário.

  2. Um perfil de duas ou três linhas

    O que estudas ou estudaste, o que já sabes fazer e o que procuras. Sem adjetivos soltos: cada ideia apoiada por algo mais abaixo.

  3. Formação

    Licenciatura, curso profissional ou mestrado, instituição e anos. A média ou a tese só se forem boas e tiverem a ver com a função.

  4. Experiência prática

    Estágios, voluntariado, trabalhos de verão e projetos, do mais recente para o mais antigo, cada um com uma ou duas conquistas.

  5. Competências e línguas

    As ferramentas que usaste de verdade e as línguas num nível que consigas manter numa conversa.

  6. Formações e atividades

    O que acrescenta e não coube em cima: certificações, desporto, associações, prémios. Se não acrescenta nada à função, sai.

Como escrever uma atividade para que se leia como experiência

A diferença entre «Voluntariado na Associação Exemplo» e uma linha que convence está na forma. Usa a mesma fórmula de qualquer CV: um verbo no passado, o que fizeste e o que mudou por causa disso. «Organizei os turnos de 25 voluntários em três dias de distribuição alimentar» percebe-se sem explicação e dá-te algo concreto para contar na entrevista.

Se não tens números, mede outra coisa: quantas pessoas, quantas vezes, em quanto tempo, o que aconteceu pela primeira vez graças a ti. Um trabalho de uma cadeira também conta se teve um resultado real: uma nota alta, um cliente verdadeiro, uma apresentação a uma empresa.

O perfil do CV quando ainda não tiveste uma função

O perfil é a parte que mais se enche de frases feitas quando não há experiência, e é por isso que se nota. «Jovem dinâmico e motivado, com vontade de aprender» escreve toda a gente. O que funciona é dizer o que estudas, uma ou duas coisas que já sabes fazer e o tipo de função que procuras.

Exemplo
O mesmo perfil, antes e depois

Antes: «Recém-licenciada dinâmica, motivada e responsável, procuro a minha primeira oportunidade para crescer profissionalmente».

Depois: «Licenciada em Gestão. Estágio de seis meses no departamento de compras de um grossista e Excel em nível intermédio. Procuro um primeiro emprego na área administrativa ou de compras».

O que não vai num CV sem experiência

Quando há pouco para mostrar, a tentação é encher. Mas cada linha de enchimento tira força às que valem. Isto convém tirar:

  • Adjetivos sem prova: «dinâmico», «responsável», «apaixonado». Se és, que uma conquista o mostre.
  • Tarefas que não fizeste ou responsabilidades exageradas. Na entrevista para o primeiro emprego vão perguntar-te por cada linha.
  • Níveis de línguas ou de ferramentas que não aguentarias num teste.
  • Dados que não te pedem: número de contribuinte, estado civil, religião.
  • Passatempos que não dizem nada da função. Um que mostre persistência ou trabalho de equipa, sim.

Na equipa da Cernoria temos uma regra para o primeiro CV: mais vale uma página curta e verdadeira do que uma longa e duvidosa. Quem contrata para um primeiro emprego não compra experiência; compra confiança, e a confiança perde-se com uma única linha que não aguenta uma pergunta.

Uma reflexão da equipa Cernoria

Um CV sem experiência completo, do princípio ao fim

Um exemplo inventado para ver tudo junto. A Marta Exemplo acabou a licenciatura em Gestão e procura o primeiro emprego como assistente administrativa. Nunca teve um contrato de trabalho, mas fez um estágio, voluntariado e ajudou na mercearia da família. Este é o CV dela, numa só página.

Exemplo
CV da Marta Exemplo

Marta Exemplo · Cidade Exemplo · [email protected] · linkedin.com/in/martaexemplo

Perfil: Licenciada em Gestão. Estágio no departamento de compras de um grossista e gestão do stock da mercearia da família. Excel em nível intermédio. Procuro uma função de assistente administrativa.

Formação: Licenciatura em Gestão, Universidade Exemplo (2023 a 2026), média de 15 valores. Projeto final: plano para reduzir custos de stock numa pequena empresa.

Estágio na Grossista Exemplo, departamento de compras (6 meses, 2025): Registei e verifiquei 400 notas de encomenda no sistema. Criei uma folha de acompanhamento de fornecedores que o departamento continuou a usar.

Mercearia da família (verões de 2021 a 2024): Fiquei com a caixa e o stock. Propus um controlo semanal dos prazos de validade que reduziu o que se deitava fora.

Voluntariado na Associação Exemplo (2023 e 2024): Coordenei a recolha anual de material escolar para 120 crianças de duas escolas.

Competências: Excel (tabelas dinâmicas, PROCV), Google Workspace, noções de contabilidade. Inglês B2.

Formações: Excel intermédio (40 horas, 2024). Atendimento ao cliente (20 horas, 2023).

Adapta o CV a cada oferta, também da primeira vez

Um CV de primeiro emprego não segue igual para todas as ofertas. Se o anúncio pede atendimento ao público, o estágio ou a mercearia vão primeiro; se pede tratamento de dados, a tese ou a formação de Excel sobem. Usa as palavras do anúncio para nomear o que já fizeste, sem acrescentar o que não fizeste.

Com pouca experiência, a carta de apresentação ou a mensagem que acompanha a candidatura pesa mais do que o habitual: é o sítio para explicar porque te interessa aquela função e o que, do que fizeste, se parece com o que pedem.

A revisão antes de enviar

Antes de te candidatares, lê o CV com o anúncio ao lado e responde a estas perguntas. Cada «não» é um ponto a corrigir.

  • Cabe numa página?
  • O que está mais perto da função fica na metade de cima da página?
  • Cada atividade tem um verbo e um resultado, não só um nome?
  • Conseguias falar de cada linha durante dois minutos numa entrevista?
  • As línguas e as ferramentas estão num nível que consegues provar?
  • Pediste a alguém que o lesse? O EURES recomenda-o: outra pessoa encontra erros e lembra-te coisas que esqueceste.

Perguntas frequentes

Como fazer um CV sem experiência?

Põe em cima um perfil curto e a tua formação, e em vez de empregos descreve estágios, projetos, voluntariado, trabalhos de verão e formações. Escreve cada um com um verbo, o que fizeste e um resultado, e deixa tudo numa página.

O que ponho na experiência profissional se nunca trabalhei?

Põe a experiência prática que tens: estágios, voluntariado, projetos com um resultado real ou ajuda num negócio de família. Podes chamar à secção «Experiência» ou «Projetos», para que ninguém procure empregos que não existem.

O voluntariado entra no CV?

Sim, e no primeiro emprego deve ir para a secção de experiência, com a organização, a função, as datas e um resultado. Mostra compromisso, trabalho de equipa e responsabilidade, exatamente o que se procura em quem está a começar.

Quantas páginas deve ter um CV sem experiência?

Uma página chega para um CV sem experiência, e quase sempre é melhor assim. Se passares, vê que linhas não ajudam para a função: formações antigas, passatempos ou atividades repetidas costumam ser as primeiras a sair.

Devo pôr a média do curso no CV?

Só se for boa e a função a valorizar, como em muitos programas de trainees. Se não for, não faz falta: um estágio ou um projeto bem contados dizem mais do que um número sem contexto.

Fontes

  1. Eurostat, Euro area unemployment at 6.4% (desemprego jovem, outubro de 2025), dezembro de 2025
  2. NACE, Job Outlook 2026: a experiência de estágio como fator decisivo (EUA)
  3. EURES (Comissão Europeia), Quatro dicas para escrever um CV quando se tem pouca experiência, 2021
  4. Portal Europeu da Juventude, Regista a tua experiência de voluntariado para teres melhores perspetivas de emprego

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