O essencial
- Uma palavra-chave é um termo que quem recruta escreveria num motor de pesquisa: o nome da função, uma ferramenta, uma tarefa concreta da profissão ou um requisito de contexto. «Proativo» ou «dinâmico» não são.
- Nem todas as palavras do anúncio pesam o mesmo. O que está no título, o que se repete e o que é «obrigatório» decide; o que é «preferencial» ou «uma mais-valia» só ordena.
- De um anúncio saem normalmente 8 a 12 termos úteis. Cada um vai onde pode ser verificado: o título no topo, as ferramentas dentro da conquista em que as usaste.
- Uma palavra genérica sozinha («gestão», «dados», «estratégia») não é palavra-chave. Com o seu complemento, é: «gestão de fornecedores», «análise de dados de vendas».
- Se não o fizeste, não entra. Uma palavra-chave que não consegues defender na entrevista faz-te passar o primeiro filtro e cair no segundo.
O que é uma palavra-chave e o que não é
Para quem faz a triagem das candidaturas, uma palavra-chave é o que escreveria no software de gestão de candidaturas (ATS) ou o que procura com os olhos quando abre o teu CV: o nome da função, uma ferramenta, uma tarefa concreta, uma língua com o seu nível. É um termo verificável. Ninguém pesquisa «apaixonado».
O erro mais comum é tratar todas as palavras do anúncio da mesma forma. Um anúncio de emprego tem seis tipos de palavras diferentes, e só alguns vão para o CV como palavras-chave. Esta é a tabela com que trabalhamos na Cernoria.
| Tipo | Exemplos | Vai para o CV? | Onde |
|---|---|---|---|
| Nome da função | Analista de Dados, Gestor de Conta, Coordenadora de Logística | Sim, se for o teu trabalho | Título e primeira frase do perfil |
| Ferramentas e certificações | SQL, Power BI, SAP, Salesforce, PMP | Sim, com o nome exato | Na conquista em que a usaste e nas competências |
| Tarefas da profissão | Reconciliações bancárias, gestão de fornecedores, angariação de clientes | Sim, com as palavras do anúncio | Conquistas de cada experiência |
| Requisitos de contexto | Inglês fluente, cinco anos no setor, licenciatura em engenharia, disponibilidade para viajar | Sim, tal como é o teu caso | Línguas, formação, datas e perfil |
| Traços e linguagem da empresa | Proativo, dinâmico, orientado para resultados, espírito de equipa | Não como palavra solta | Demonstram-se com uma conquista |
| Características pessoais | Idade, sexo, estado civil, aparência | Não | Não são mérito: não se escrevem para encaixar |
Obrigatório, preferencial ou enchimento: como pesar cada termo
Um anúncio não vem com pesos marcados, mas deixa pistas. O nome da função pesa mais do que tudo o resto junto, porque é o primeiro que se pesquisa e o primeiro que se lê. Depois pesa o que se repete: se «reconciliações» aparece nas funções e outra vez nos requisitos, é central mesmo sem dizer «obrigatório». O que vem com «obrigatório», «indispensável» ou «requisito» é requisito. O que vem com «preferencial», «valoriza-se», «uma mais-valia» ou «idealmente» é um extra que ordena, não que exclui.
E há enchimento. A apresentação da empresa, os benefícios e as listas de doze programas copiadas de outro anúncio raramente decidem. Quando um anúncio pede doze ferramentas, vê quais se repetem nas funções: essas duas ou três são as verdadeiras.
O que um anúncio diz nem sempre é o que se filtra, e vice-versa. Um estudo do Burning Glass Institute e da Harvard Business School sobre empresas dos Estados Unidos que deixaram de exigir licenciatura concluiu que muitas mudaram o texto do anúncio, mas não quem contratavam. Lê o anúncio como uma pista, não como um contrato.
das empresas estudadas que deixaram de exigir licenciatura fizeram-no «só no nome»: mudou o anúncio, não quem contratavam (Estados Unidos, 2024).
Fonte: Burning Glass Institute e Harvard Business School, Skills-Based Hiring: The Long Road from Pronouncements to Practice, 2024 (resumo)contratações do último ano analisado refletiu de facto essa mudança, segundo o mesmo estudo.
Fonte: Burning Glass Institute e Harvard Business School, Skills-Based Hiring: The Long Road from Pronouncements to Practice, 2024 (resumo)das mulheres e 46 % dos homens de um inquérito da Harvard Business Review não se candidataram por acharem que, sem todos os requisitos, não seriam contratados (2014).
Fonte: Tara Sophia Mohr, Why Women Don't Apply for Jobs Unless They're 100% Qualified, Harvard Business Review, 2014| Pista no anúncio | Peso | O que fazer |
|---|---|---|
| Está no nome da função | Decide | Usa-o no teu título se for o teu trabalho, ou descreve o que fazes com essas palavras |
| Vem com «obrigatório», «indispensável», «requisito» | Requisito | Tem de se ver no primeiro terço do CV, com uma prova |
| Repete-se nas funções e nos requisitos | Requisito mesmo sem o dizer | Leva-o para a primeira conquista da tua experiência atual |
| Vem com «preferencial», «valoriza-se», «mais-valia» | Extra | Inclui-o se o tiveres; se não, não te deve travar |
| Só aparece na apresentação da empresa | Contexto | Serve para a carta ou a entrevista, não como palavra-chave |
| Lista longa de ferramentas sem repetição | Quase sempre enchimento | Fica com as que se repetem e que usas de verdade |
O método: do anúncio a uma lista de 8 a 12 termos
À mão, leva cerca de quinze minutos por anúncio. Com prática, desce para cinco, porque os anúncios para a mesma função são muito parecidos. Precisas do anúncio copiado para um documento e de três cores de marcador.
- Apaga o que não é a função
Tira a apresentação da empresa, os benefícios, as notas legais e o «envia o teu CV para». Ficam o título, as funções e os requisitos. Costuma ser menos de metade do texto.
- Marca com três cores
Uma cor para o nome da função, as ferramentas e as certificações. Outra para as funções («elaborar o forecast de vendas mensal», «negociar com fornecedores»). A terceira para o contexto: anos, formação, língua, setor, disponibilidade. Traços como «proativo» não se marcam.
- Dá um peso a cada termo
Com a tabela de pistas, escreve ao lado de cada termo se decide, se é requisito, extra ou enchimento. Na dúvida, extra.
- Normaliza cada termo
Uma só forma por coisa. Separa o que vem junto («Excel e Power BI» são dois termos). Completa as palavras genéricas: «gestão» sozinha não diz nada, «gestão de stocks» diz. Se o anúncio usa uma sigla, anota a sigla e o nome completo.
- Cruza com a tua experiência
Cada termo tem três respostas possíveis: já está no teu CV com essas palavras; fizeste-o mas contaste-o de outra forma; não o fizeste. No segundo grupo está quase todo o trabalho. O terceiro não entra no CV.
- Fica com 8 a 12 e decide onde vai cada um
Primeiro o que decide e os requisitos que cumpres, depois os extras que tens. Com isso constróis o título, a primeira frase do perfil, a ordem das conquistas e a lista de competências.
Um exemplo do princípio ao fim
Um anúncio e uma pessoa inventados para ver o método aplicado. O Tiago Exemplo é analista numa empresa de grande consumo e candidata-se a uma vaga de análise comercial na Distribuição Norte, uma empresa fictícia.
O anúncio (resumido): «Analista de Dados Comerciais. Somos uma empresa líder, jovem e dinâmica. Funções: elaborar o forecast de vendas mensal, construir dashboards em Power BI para a equipa comercial e analisar a rentabilidade por cliente e por canal. Requisitos obrigatórios: dois anos de experiência em análise comercial, SQL e Excel avançado. Preferencial: Python, experiência em grande consumo, inglês intermédio. Procuramos uma pessoa proativa e apaixonada por dados».
O que vai para o lixo: «líder, jovem e dinâmica», «proativa», «apaixonada por dados». Ninguém pesquisa isso.
O que decide: «Analista de Dados Comerciais» (o título). Requisitos: análise comercial, SQL, Excel avançado, forecast de vendas (repete-se nas funções), Power BI (nas funções, com uma tarefa concreta). Extras: Python, grande consumo, inglês intermédio, rentabilidade por cliente.
Antes, no CV do Tiago: «Analista | Reporting e KPI». Na experiência: «Preparava relatórios semanais de vendas e dashboards para a direção».
Depois. Título: «Analista comercial | forecast de vendas, SQL e Power BI». Primeira conquista da experiência atual, mesma função e mesmas datas: «Elaborei o forecast de vendas mensal de 3 canais com SQL e Excel avançado; construí 6 dashboards em Power BI que a equipa comercial usa todas as semanas». Segunda conquista: «Analisei a rentabilidade por cliente do canal grossista e propus ajustes de preço em 40 contas».
| Termo | Peso | Tem? | Para onde foi |
|---|---|---|---|
| Analista de Dados Comerciais | Decide | Sim, com outro nome | Título: «Analista comercial» |
| Forecast de vendas | Requisito | Sim, chamava-lhe «relatórios» | Primeira conquista |
| SQL | Requisito | Sim | Primeira conquista e competências |
| Excel avançado | Requisito | Sim | Primeira conquista e competências |
| Power BI | Requisito | Sim, chamava-lhe «dashboards» | Primeira conquista e competências |
| Rentabilidade por cliente | Extra | Sim | Segunda conquista |
| Python | Extra | Não | Não entra |
| Inglês intermédio | Extra | Sim | Línguas, com o seu nível real |
Onde pôr cada palavra-chave no CV
Uma palavra-chave no sítio errado vale menos. A lista de competências no fim do CV é a última coisa que se lê, e uma ferramenta que só aparece aí não diz quanto a usaste. A regra é pôr cada termo onde pode ser verificado.
- Título: o nome da função, se for o teu trabalho, mais dois ou três termos que decidem. É o primeiro que se lê e o mais pesquisado.
- Perfil: a primeira frase responde ao requisito mais forte do anúncio, com um dado teu (anos, dimensão da equipa, setor).
- Conquistas de cada experiência: funções e ferramentas, dentro da frase que conta o que fizeste com elas. É aí que a palavra-chave tem prova.
- Competências: ferramentas e certificações com o nome próprio, primeiro as do anúncio. Cinco a dez, não quarenta.
- Línguas e formação: com o nome e o nível que tens, mesmo que o anúncio peça outro.
Sinónimos, siglas e a língua do anúncio
Quando a tua experiência e o anúncio chamam a mesma coisa de forma diferente, ganha a palavra do anúncio, desde que seja de facto a mesma coisa. «Painéis» e «dashboards», sim; «relatórios» e «forecast», não. Na dúvida, pergunta-te se conseguirias explicar na entrevista o que fazias com esse nome.
Escreve as siglas das duas formas na primeira vez: «SEO (otimização para motores de pesquisa)», «CRM (Salesforce)». Assim encontra-te quem pesquisa pela sigla e quem pesquisa pelo nome completo. O mesmo para os termos em inglês que o setor usa sem traduzir: se o anúncio diz «forecast», escreve «forecast».
Se o anúncio estiver noutra língua, as palavras-chave vão nessa língua. Um anúncio em inglês para uma vaga em Lisboa pesquisa-se em inglês, mesmo que o teu CV esteja em português.
Para saberes como se chama o teu trabalho fora da tua empresa, é útil o ESCO, a classificação europeia de profissões e competências. Para cada profissão, separa as competências essenciais das opcionais: a mesma distinção entre obrigatório e preferencial, feita por especialistas.
O que não é palavra-chave, mesmo que uma ferramenta o assinale
Muitas ferramentas que comparam o CV com um anúncio contam palavras sem as perceber, e pedem-te para acrescentar coisas que não somam. Este é o critério com que a Cernoria decide o que não conta como palavra-chave. Funciona da mesma forma à mão.
- Uma palavra genérica sozinha: «gestão», «estratégia», «dados», «equipa», «resultados», «experiência». Só conta com o seu complemento.
- Um país ou uma cidade: é um dado do anúncio, não uma competência. A tua localização vai nos contactos.
- O regime de trabalho: «remoto», «híbrido», «tempo inteiro». Responde-se no formulário, não no CV.
- Uma frase inteira do anúncio: «capacidade de trabalhar sob pressão em contextos em constante mudança» não se pesquisa. Demonstra-se com uma conquista.
- Um termo colado a outro: «Excel e Power BI» são dois termos, e podes ter só um.
Na Cernoria vemos assim: uma palavra-chave não é uma palavra que está no anúncio, é uma pergunta que o anúncio te faz. O teu CV responde-lhe com algo que fizeste, ou não lhe responde.
Erros que te tiram do processo
- Colar uma lista de quarenta palavras no fim do CV. O ATS encontra-as, mas quem abre o CV vê uma lista sem provas e deixa de confiar no resto.
- Repetir a mesma palavra muitas vezes. Os motores de pesquisa veem se o termo está lá, não quantas vezes. Só consegues um CV que se lê pior.
- Esconder palavras a branco sobre branco. Aparecem assim que o sistema extrai o texto, à vista de quem abre a tua ficha.
- Copiar frases inteiras do anúncio. Nota-se, e muitas vezes são frases de enchimento que ninguém pesquisa.
- Pôr uma ferramenta que viste uma vez num curso. Se o anúncio a pede como requisito, na entrevista vão perguntar-te por ela.
Quantos requisitos tens de cumprir para te candidatares?
Não há uma percentagem mágica, e nenhum dos números que circulam sobre isto tem um estudo por trás. O que sabemos é que muita gente deixa de se candidatar por ler os requisitos à letra. No inquérito de Tara Mohr para a Harvard Business Review, a razão mais citada para não se candidatar foi achar que, sem todos os requisitos, não seria contratada.
O nosso critério: se cumpres tudo o que decide e a maioria dos requisitos, candidata-te. Se te falta um requisito, di-lo na carta ou no perfil, com o que tens no seu lugar. Se te falta o que decide (a profissão ou a língua são outras), o anúncio provavelmente não é para ti, e o teu tempo rende mais noutro.
Perguntas frequentes
Quantas palavras-chave deve ter um CV?
As que o anúncio pede e que consegues comprovar. De um anúncio saem normalmente 8 a 12 termos úteis. Mais do que isso costuma ser enchimento ou coisas que não fizeste.
As soft skills contam como palavras-chave?
Raramente como palavra solta. «Liderança» numa lista não diz nada; «coordenei uma equipa de 5 pessoas no fecho de contas anual» diz. Escreve o facto e deixa a qualidade ver-se.
Uso a sigla ou o nome completo?
Os dois, na primeira vez: «SEO (otimização para motores de pesquisa)». Depois, basta a sigla.
As palavras-chave vão na língua do anúncio?
Sim. Se o anúncio estiver em inglês, os termos vão em inglês mesmo que a vaga seja em Portugal. Se o teu CV estiver em português, deixa em inglês só os nomes que o setor não traduz.
Vale a pena copiar a descrição da função para o CV?
Não. Os termos servem para contar o que fizeste. Uma frase copiada do anúncio nota-se logo, e quase sempre é enchimento que ninguém pesquisa.
Fontes
- Burning Glass Institute e Harvard Business School, Skills-Based Hiring: The Long Road from Pronouncements to Practice, 2024 (resumo)
- Tara Sophia Mohr, Why Women Don't Apply for Jobs Unless They're 100% Qualified, Harvard Business Review, 2014
- Comissão Europeia, ESCO: classificação europeia de competências, qualificações e profissões

O que é um ATS e como passar o filtro sem truques
Carta de apresentação: quando muda o resultado e quando não
Como adaptar o CV a cada oferta sem inventar nada