CV e ATS

CV depois dos 50: mostrar um percurso longo sem que a idade fale primeiro

Um CV depois dos 50 mostra por inteiro os últimos 10 a 15 anos, resume o resto e tira os dados que só servem para calcular a tua idade. Um percurso longo é uma vantagem; contá-lo todo, não.

Equipa CernoriaAtualizado a 30 de outubro de 202611 min de leitura

O essencial

  • Um CV depois dos 50 descreve os últimos 10 a 15 anos com resultados e resume as funções anteriores numa linha cada, ou tira-as se não acrescentam nada.
  • A data de nascimento, o ano em que acabaste o curso e os empregos de há 30 anos só servem para calcular a idade: podem sair.
  • Para não pareceres sobrequalificado, o título e os resultados falam do nível da função que procuras, não do cargo mais alto que tiveste.
  • As experiências com candidaturas fictícias mostram que a idade pesa na primeira leitura: um CV que começa pelo recente ganha a essa primeira impressão.

Porque é que um CV depois dos 45 se lê de outra forma

Aos 45 anos é normal ter vinte anos de trabalho ou mais, e a tentação é contá-los todos. O resultado é um CV de três ou quatro páginas que começa pelo primeiro emprego, refere programas que já ninguém usa e põe o ano da licenciatura logo na primeira página. Quem recruta nem precisa de fazer contas: a idade aparece antes dos resultados.

Que a idade pesa não é uma impressão. Na maior experiência deste tipo feita nos Estados Unidos, David Neumark, Ian Burn e Patrick Button enviaram mais de 40.000 candidaturas fictícias, iguais exceto na idade, a mais de 13.000 anúncios reais. Nas funções administrativas, as mulheres de 49 a 51 anos receberam menos contactos do que as de 29 a 31, e as de 64 a 66 ainda menos; nos homens, os resultados foram mais mistos. Na Suécia, outra experiência concluiu que os contactos começam a descer por volta dos 40.

10,3%

das candidaturas de mulheres de 49 a 51 anos a funções administrativas recebeu um contacto, contra 14,4% das de 29 a 31. Experiência nos Estados Unidos.

Fonte: David Neumark, Ian Burn e Patrick Button, Is It Harder for Older Workers to Find Jobs? New and Improved Evidence from a Field Experiment, NBER, working paper 21669 (Journal of Political Economy, 2019)
6.000

candidaturas fictícias foram enviadas por Carlsson e Eriksson na Suécia. A probabilidade de a empresa contactar começou a descer por volta dos 40 anos.

Fonte: Universidade de Uppsala, Job applicants over 40 filtered out by employers, 2017 (sobre Carlsson e Eriksson, IFAU)

CV depois dos 50: até onde recuar

A regra mais útil vem do JobHelp, o site do governo britânico para quem procura emprego: limitar a experiência aos últimos 10 a 15 anos, a não ser que algo mais antigo seja exatamente o que o anúncio pede. Não é esconder: é pôr à frente o que quem recruta precisa para decidir.

O resto não desaparece: resume-se. Uma função de há vinte anos pode ocupar uma linha com o cargo e a empresa, e as de há trinta podem ficar juntas numa linha de «experiência anterior». Se um emprego antigo explica algo do teu perfil atual (começaste ao balcão e hoje geres as lojas de uma região), fica, numa linha.

Quanto espaço cabe a cada parte do percurso
Há quanto tempoComo aparece no CVEspaço
Últimos 10 anosCargo, empresa, datas e dois a quatro resultadosA maior parte da primeira página
Há 10 a 15 anosCargo, empresa, datas e um ou dois resultadosUm bloco curto por função
Há 15 a 25 anosCargo e empresa; as datas só se evitarem uma lacuna aparenteUma linha por função
Há mais de 25 anosUma linha de «experiência anterior» ou nadaUma linha para todo o período
É a regra que usamos na Cernoria. Se uma função antiga é exatamente o que o anúncio pede, sobe de categoria.

O que tirar, o que resumir e o que destacar

Há dados que passam despercebidos no CV de alguém com 25 anos e saltam à vista no de alguém com 50. Não porque estejam errados, mas porque não acrescentam nada à função e põem um número na idade. A tabela separa o que convém tirar, encurtar ou fazer subir.

A revisão de um CV com um percurso longo
ElementoO que fazerPorquê
Data de nascimento ou idadeTirá-laA função não a pede e é a primeira coisa que se lê
Ano em que acabaste o cursoTirá-lo e deixar o grau e a instituiçãoPermite calcular a idade sem acrescentar nada
Funções de há mais de 15 anosResumi-las a cargo e empresaLibertam espaço para o recente
Programas e ferramentas que já não se usamTirá-losFazem pensar que não te atualizaste
Cursos de há muitos anosManter só os que continuam atuaisUm curso recente diz mais do que dez antigos
Resultados dos últimos cinco anosPô-los no início de cada funçãoMostram que o teu melhor trabalho é o atual
Ferramentas que usas hojeNomeá-las com as palavras do anúncioRespondem à dúvida sobre a atualização
Se o anúncio pede expressamente um dado (uma inscrição numa ordem profissional com a data, por exemplo), entra.

As datas: quais são precisas e quais não

Tirar todas as datas é um erro: um CV sem datas parece esconder alguma coisa, e quem lê acaba por imaginar o pior. O razoável é manter os anos das funções dos últimos 15 anos (o mês é opcional) e tirar as datas das funções mais antigas e da formação. O JobHelp di-lo sem rodeios: não é preciso pôr a idade no CV nem no formulário de candidatura.

Se tirares as datas de um período, garante que não fica uma lacuna aparente entre funções recentes. Uma pausa nos últimos anos explica-se numa linha; um CV que salta de 2010 para 2019 sem uma palavra levanta mais perguntas do que a idade.

Como não parecer sobrequalificado

«Sobrequalificado» costuma ser a forma educada de dizer uma de três coisas: que vais pedir um salário mais alto, que te vais aborrecer ou que não vais aceitar ser chefiado por alguém mais novo. O CV pode responder às três antes de alguém as pensar.

A chave é escrever o CV para a função que procuras, não para a mais alta que tiveste. Se foste diretor e hoje te candidatas a responsável de equipa, o título diz «responsável de compras com experiência na negociação com fornecedores», não «ex-diretor-geral». Os resultados que ficam em cima são os do nível do anúncio. E se a mudança de nível é desejada, uma frase na carta de apresentação explica-a melhor do que qualquer silêncio.

  • Um título com o nome da função a que te candidatas e o que fazes, nas tuas palavras.
  • Em cima, os resultados do nível que o anúncio pede; os de cargos mais altos mais abaixo ou resumidos.
  • Uma frase na carta que explique porquê esta função, se for um passo para outro nível ou outro setor.
  • Nenhuma menção ao total de anos de experiência («30 anos de carreira») no título.
  • As ferramentas atuais nomeadas com as palavras do anúncio, para não ficar a dúvida.

O que diz o direito europeu sobre a idade no recrutamento

A Diretiva 2000/78/CE estabelece um quadro geral para lutar contra a discriminação em razão, entre outros motivos, da idade, no emprego e na atividade profissional. Abrange expressamente as condições de acesso ao emprego, incluindo os critérios de seleção e as condições de contratação. Portugal aplica-a enquanto Estado-Membro da União Europeia.

Isso não impede que a idade pese na primeira leitura de um CV, que ninguém vê. Por isso o CV não depende da lei: depende de a primeira coisa lida ser o que fizeste nos últimos anos. Se achas que foste afastado por causa da idade, o caminho é informares-te junto das entidades competentes ou de um profissional.

O critério da Cernoria: a experiência conta-se pelo recente

Um CV com um percurso longo não ganha pela quantidade. Ganha quando as primeiras linhas mostram que o teu melhor trabalho é o atual e que dominas as ferramentas da função. O antigo serve de apoio, não de apresentação. Por isso a nossa regra é a mesma para toda a gente: os últimos 10 anos por inteiro, o resto resumido e o que só serve para calcular a idade, fora.

Na equipa da Cernoria vemos assim: vinte anos de experiência não se provam a contá-los, provam-se com o que conseguiste nos últimos cinco. O CV é uma apresentação, não uma biografia.

Uma reflexão da equipa Cernoria

Um exemplo do princípio ao fim: o CV da Fernanda

Um caso inventado. A Fernanda Exemplo tem 52 anos, trabalha há 28 em logística no Porto e quer candidatar-se a responsável de operações na Distribuição Douro Exemplo. O CV dela tinha quatro páginas e começava pela data de nascimento. Foi assim que o refez.

  1. Tirou o que só revelava a idade

    A data de nascimento, o estado civil e o ano em que concluiu o curso profissional de logística. Deixou o curso e a escola.

  2. Ordenou por antiguidade

    As duas últimas funções, dos últimos onze anos, ficaram completas com os resultados. As três anteriores passaram a uma linha cada, sem datas. Os dois primeiros empregos, a uma linha de experiência anterior.

  3. Ajustou o título ao anúncio

    Passou de «Mais de 25 anos de experiência em logística» para «Responsável de operações logísticas com experiência em armazéns automatizados e equipas de 40 pessoas».

  4. Atualizou as ferramentas

    Tirou dois programas que já não usava e nomeou o sistema de gestão de armazém e a ferramenta de dashboards que usa hoje, com as palavras do anúncio.

Exemplo
O CV da Fernanda Exemplo, antes e depois

Antes, primeira linha: «Fernanda Exemplo. Nascida a 3 de maio de 1974. Casada. Mais de 25 anos de experiência em logística». Quatro páginas, a começar pelo primeiro emprego em 1996.

Depois, título: «Responsável de operações logísticas com experiência em armazéns automatizados e equipas de 40 pessoas».

Função atual: «Responsável de armazém, Logística Ribeira Exemplo (desde 2018). Baixei os erros de preparação de encomendas de 2% para 0,5% com a entrada em funcionamento do novo sistema de gestão de armazém».

O resto: «Experiência anterior em planeamento de transportes e apoio ao cliente em distribuidores de grande consumo». Duas páginas no total.

A revisão antes de enviar

Com o CV acabado e o anúncio ao lado, passa por esta lista. Cada «não» é uma linha a corrigir.

  • Os últimos 10 a 15 anos estão completos e o resto resumido?
  • Tiraste a data de nascimento e o ano em que acabaste o curso?
  • O título fala da função que procuras e não dos teus anos de experiência?
  • As ferramentas referidas são as que usas hoje e as que o anúncio pede?
  • Não fica nenhuma lacuna por explicar entre as funções recentes?
  • O CV cabe em duas páginas?

Perguntas frequentes

É preciso pôr a idade no CV?

Não, a não ser que o anúncio a peça por um motivo concreto. A idade não diz nada do teu trabalho e, na primeira leitura, pode pesar mais do que os teus resultados. Chegam o nome, a cidade, o telemóvel, o email e, se tiveres, o perfil de LinkedIn.

Quantos anos de experiência pôr num CV depois dos 50?

Os últimos 10 a 15 anos por inteiro, com resultados, e o resto resumido numa linha por função ou numa linha de experiência anterior. Uma função mais antiga só sobe se for exatamente o que o anúncio pede.

Como evito ser afastado por estar sobrequalificado?

Escrevendo o CV para a função que procuras e não para a mais alta que tiveste. O título retoma a função do anúncio, os resultados desse nível ficam em cima e, se a mudança de nível é desejada, uma frase na carta explica porquê.

Convém tirar as datas dos cursos?

Sim, na maioria dos casos. O grau e a instituição dizem o que importa; o ano só serve para calcular a idade. Mantém-se se o anúncio pedir uma inscrição numa ordem ou uma certificação com a data.

Devo pôr fotografia no CV depois dos 50?

Só se o anúncio a pedir. Uma fotografia não acrescenta nada sobre o teu trabalho e revela a idade, tal como a data de nascimento. Se a puseres, que seja recente e profissional, com fundo neutro.

Fontes

  1. David Neumark, Ian Burn e Patrick Button, Is It Harder for Older Workers to Find Jobs? New and Improved Evidence from a Field Experiment, NBER, working paper 21669 (Journal of Political Economy, 2019)
  2. Universidade de Uppsala, Job applicants over 40 filtered out by employers, 2017 (sobre Carlsson e Eriksson, IFAU)
  3. JobHelp (Department for Work and Pensions, Reino Unido), Getting your CV noticed: tips for people over 50
  4. Diretiva 2000/78/CE do Conselho, que estabelece um quadro geral de igualdade de tratamento no emprego e na atividade profissional (EUR-Lex)

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