CV e ATS

O CV para trabalhar no estrangeiro: o que muda mesmo em cada país

Um CV para trabalhar no estrangeiro segue os costumes do país da oferta, não os teus. Mudam o nome do documento, os dados pessoais que entram, o que acompanha o CV e a forma de contar uma experiência que lá ninguém conhece.

Equipa CernoriaAtualizado a 1 de novembro de 202615 min de leitura

O essencial

  • Um CV em inglês para trabalhar no estrangeiro não é um só: nos EUA chama-se résumé e tem uma ou duas páginas, e no Reino Unido chama-se CV e não leva idade nem nacionalidade.
  • Um CV para trabalhar no estrangeiro faz-se com as regras do país de destino: manda o anúncio, não o hábito de casa.
  • Nos Estados Unidos e no Reino Unido não entram nem a fotografia nem a idade; na Alemanha a fotografia é habitual e o CV assina-se e data-se.
  • Traduzir o CV não é só mudar de língua: é preciso explicar empresas, cargos e cursos que quem lê não conhece.
  • Sobre o reconhecimento do teu curso informam serviços oficiais como a rede ENIC-NARIC; no CV basta nomeá-lo com clareza.

CV em inglês: o résumé dos Estados Unidos e o CV do Reino Unido

Muitas ofertas lá fora, incluindo as de empresas alemãs, irlandesas ou neerlandesas, pedem o CV em inglês, e é aí que surge a primeira dúvida: não há um só CV em inglês. Nos Estados Unidos o documento chama-se résumé. O guia do Pomona College para estudantes internacionais explica-o assim: aquilo que conheces como CV, lá é o résumé, e tem no máximo uma ou duas páginas. No Reino Unido continua a chamar-se CV.

Também mudam os dados pessoais. Para os Estados Unidos, o Pomona College diz para não pôr fotografia, idade ou data de nascimento, estado civil, raça, religião nem situação migratória. Para o Reino Unido, o National Careers Service, o serviço público de orientação profissional, diz que não entram a idade, a data de nascimento, o estado civil nem a nacionalidade, e que entram o nome, o telefone, o e-mail e a ligação ao teu perfil profissional.

O que não muda é a forma de traduzir: o cargo diz-se como se chamaria lá o mesmo trabalho, o curso leva o nome oficial e a duração, e a empresa que ninguém conhece fora de Portugal explica-se em meia linha. O nosso critério: escolhe uma só variante do inglês, britânica ou americana, conforme o destino, e não as mistures.

Se te candidatas em inglês a outro país da União Europeia, o Europass é uma ferramenta gratuita da Comissão Europeia para guardar a tua experiência e criar várias versões do CV. É uma ajuda, não uma obrigação: envia o que a oferta pede. E antes de enviar seja o que for, consulta a fonte oficial do destino: EURES para a UE, Make it in Germany para a Alemanha e o National Careers Service para o Reino Unido.

CV em inglês: Reino Unido e Estados Unidos
O que mudaReino UnidoEstados Unidos
Como se chamaCVRésumé (Pomona College)
TamanhoClaro e fácil de ler; o guia oficial não fixa páginas (National Careers Service)Uma ou duas páginas no máximo (Pomona College)
FotografiaO guia oficial não a mencionaNão entra (Pomona College)
Dados que não entramIdade, data de nascimento, estado civil e nacionalidade (National Careers Service)Idade ou data de nascimento, estado civil, raça, religião e situação migratória (Pomona College)
OrdemContactos, apresentação, formação e experiência; com muita experiência, a experiência vem antes (National Careers Service)O guia citado não fixa uma ordem
Fonte oficialNational Careers Service (Governo do Reino Unido)Não há um formato oficial; seguimos o guia de uma universidade
São recomendações de serviços de orientação e universidades, não regras legais. Se a oferta pedir outra coisa, envia o que pede.

CV para trabalhar no estrangeiro: quem decide é o país da oferta

O erro mais comum de quem se candidata lá fora é enviar o mesmo CV que funciona em Portugal. Não está mal escrito; está escrito para outra pessoa. Quem o lê em Madrid, em Berlim ou em Austin tem outros costumes, outras leis sobre o que pode perguntar e, sobretudo, não conhece as tuas empresas, a tua faculdade nem o nome que o teu cargo tinha cá.

A nossa regra é simples: o CV segue os costumes do país onde está o emprego. Se vives no Porto e te candidatas a uma empresa de Hamburgo, o teu CV é alemão, mesmo que nunca tenhas vivido na Alemanha. Se a oferta é de uma empresa estrangeira mas em teletrabalho a partir de Portugal, vê em que língua está o anúncio e quem vai decidir: isso diz-te que costumes contam.

Mudar de país para trabalhar não é raro. Segundo o instituto de estatística alemão, em 2025 cerca de 7,3 milhões de cidadãos da UE trabalhavam noutro país da UE, e a Alemanha era o destino que mais recebia.

Sobre a fotografia, as colunas e o design já escrevemos o nosso guia de formato do CV, e sobre o tamanho, o guia de quantas páginas deve ter. Este guia trata do que não se vê à primeira vista: o que muda quando o CV atravessa uma fronteira.

Cidadãos da UE que trabalham noutro país da UE, por país de destino, em milhões (Destatis, 2025)
  • Alemanha2.6M
  • Espanha1M
  • Itália0.8M
  • França0.6M
Fonte: Destatis (Serviço Federal de Estatística alemão), Labour mobility in the EU, 2026

O que muda conforme o país de destino

Esta tabela junta o que dizem os serviços públicos de emprego e os guias oficiais ou universitários de cada destino sobre o documento e os dados pessoais. Não é uma lista de gostos: cada linha vem de uma fonte indicada no fim. Onde uma fonte não diz nada, a tabela não acrescenta nada.

As maiores diferenças não estão no design mas nos dados pessoais. O que num país é um dado de cortesia é, noutro, uma informação que quem recruta prefere não ver, porque não deve pesar na decisão.

O CV em cinco destinos
DestinoO documentoFotografiaDados pessoaisO que costuma surpreender
EspanhaUm CV, com vários modelos possíveis, adaptado a cada oferta (EURES)Não é imprescindível; em alguns cargos pode convir (EURES)Contactos e o que o cargo exigeA carta e o CV vão em espanhol, salvo indicação em contrário (EURES)
AlemanhaLebenslauf em forma de tabela, do mais recente para o mais antigo (EURES)Habitual, mas depende do setor (Make it in Germany)Nome, morada e contactos (Make it in Germany)O CV assina-se e data-se (EURES)
Estados UnidosUm résumé de uma ou duas páginas no máximo (Pomona College)Não entra (Pomona College)Nem idade nem data de nascimento, estado civil, religião ou situação de visto (Pomona College)A situação de visto também não entra no résumé
Reino UnidoUm CV claro e direto (National Careers Service)Ver o nosso guia de formatoNem idade, nem data de nascimento, nem estado civil, nem nacionalidade (National Careers Service)A nacionalidade, que noutros países se põe sem pensar, não entra
ArgentinaUm CV de até duas páginas (guia oficial)Opcional; se entrar, tipo passe e formal (guia oficial)O guia oficial inclui documento de identificação, data de nascimento e estado civilOs dados da tua família não entram (guia oficial)
A Argentina serve de exemplo de um guia oficial da América Latina. São recomendações de serviços de emprego e universidades, não regras legais: se o anúncio pedir outra coisa, envia o que pede.

Traduzir o CV não é só mudar de língua

Quando o CV muda de língua, a tentação é traduzir palavra a palavra. Percebe-se, mas não se lê como um CV daquele país. Uma recrutadora alemã não sabe o que vale um «mestrado integrado», nem se «responsável de área» numa empresa de Braga queria dizer liderar uma equipa ou era só um título.

O que se traduz é o sentido. O cargo leva o nome que lá se usa para o mesmo trabalho, com o original entre parênteses se ajudar. A empresa explica-se em meia linha: setor, dimensão e país. Os números das tuas conquistas vão em percentagem ou numa moeda que lá se entenda, indicando que é uma conversão.

Como levar para fora o que não tem equivalente
O que tensO problema lá foraComo escrever
Um cargo com nome localNão diz o que fazias nem quantas pessoas chefiavasO nome equivalente no país de destino e uma linha sobre o âmbito
Uma empresa conhecida só em PortugalPara quem lê é só mais um nomeSetor, dimensão e país em meia linha: «distribuição alimentar, 300 trabalhadores, Portugal»
Um curso superiorA duração e o nível não se leem da mesma forma em todo o ladoO nome oficial, a duração em anos, os créditos ECTS e a equivalência, se a tiveres
Resultados em euros fora da zona euroQuem lê em libras ou dólares não faz a conversãoPercentagens, volumes ou a moeda do destino, indicando que é uma conversão
Uma média finalAs escalas mudam de país para paísSó se a pedirem, com a escala ao lado: «16 em 20»
Telemóvel e moradaUm número sem indicativo não se marca a partir do estrangeiro+351 e o número, cidade e país; a morada completa raramente faz falta
É o critério que usamos na Cernoria. As pessoas e as empresas dos exemplos são inventadas.

O teu curso e a tua experiência: como se leem lá fora

O reconhecimento de um grau estrangeiro é um processo oficial que depende de cada país e de cada profissão. Para te orientares existe a rede ENIC-NARIC: centros nacionais de informação sobre reconhecimento de graus, hoje presentes em 56 países. Na Alemanha, o portal oficial «Anerkennung in Deutschland» tem uma ferramenta que indica se o reconhecimento é possível e se é necessário para a tua profissão.

Para o CV, o importante é que o curso se perceba: nome oficial, instituição, país e anos de estudo. Se já tens o reconhecimento ou uma equivalência, di-lo na mesma linha, porque poupa uma dúvida a quem lê. Se não tens, não é preciso explicá-lo no CV: é assunto para quando a empresa perguntar.

Com os certificados passa-se algo parecido. A EURES diz que em Espanha normalmente não se juntam cópias de diplomas ao CV, salvo se o anúncio as pedir. Na Alemanha, pelo contrário, a candidatura costuma levar cópias de diplomas e certificados, e o Make it in Germany recomenda traduzi-los para alemão ou inglês com tempo, para não perderes o prazo.

A carta e o que acompanha o CV

Nalguns países o CV viaja sozinho; noutros, vai acompanhado. Na Alemanha, segundo a EURES, uma candidatura escrita leva uma carta de não mais de uma página A4, o CV com fotografia e cópias de diplomas e certificados, e se for por email, convém um único PDF de até 2 MB. O Make it in Germany acrescenta as referências de empregadores anteriores, se as tiveres.

Em Espanha, a EURES pede uma carta concisa e formal, adaptada a cada oferta e não genérica. Para os outros destinos, o nosso critério é simples: se o anúncio pede carta, vai uma escrita para essa empresa; se não pede, umas poucas linhas a explicar porque te candidatas a esse país respondem à pergunta que faz quem lê um CV estrangeiro.

Na equipa da Cernoria vemos assim: um CV estrangeiro não é posto de lado por vir de fora, é posto de lado quando obriga quem lê a adivinhar. Cada linha que explicas, uma empresa, um curso, um cargo, é uma dúvida a menos entre o teu CV e uma entrevista.

Uma reflexão da equipa Cernoria

Contactos, localização e disponibilidade

Quem recruta lá fora faz três perguntas antes de ler a tua experiência: onde estás, quando poderias começar e se te pode ligar sem complicações. Responder-lhes no topo, na linha de contactos, muda a forma como se lê o resto.

Indica a cidade e o país onde estás hoje e, se te vais mudar, a data prevista ou a tua disponibilidade. O telemóvel vai com o indicativo internacional, com um email que vês todos os dias. Para os Estados Unidos, o guia do Pomona College é claro: a situação de visto não entra no résumé. Se te perguntarem, responde-se durante o processo, não no documento.

  • Cidade e país atuais, e a data prevista da mudança se já a tiveres.
  • Telemóvel com +351 e um email pessoal.
  • Línguas com um nível que se entenda lá fora, por exemplo pelo Quadro Europeu Comum (B2, C1).
  • A ligação para o teu perfil profissional, se estiver na língua do anúncio.

O critério da Cernoria: uma versão base e uma por país

Não é preciso escrever um CV novo para cada país. O que funciona é ter uma versão base completa, com todos os cargos, conquistas e estudos bem explicados, e tirar dela uma versão por destino: a língua, os dados pessoais que entram ou não, a fotografia onde é habitual e a ordem das conquistas de acordo com o anúncio.

O que nunca muda entre versões são os factos: cargos, empresas, datas e números. Mudam as palavras com que se nomeiam e o que se explica. Se um facto tiver de mudar para que o CV encaixe num país, o problema não é o país.

Um exemplo do princípio ao fim: o mesmo CV para Berlim e para Austin

Um caso inventado para ver as decisões na prática. Marta Exemplo é engenheira de dados em Braga, há sete anos na Mercearias do Minho, uma cadeia que ninguém conhece fora do Norte. Esta semana candidata-se a duas ofertas em inglês: uma empresa de logística em Berlim e uma tecnológica em Austin.

  1. Parte da versão base

    A Marta tem um CV completo em português com todos os cargos e conquistas. Daí tira as duas versões, sem mexer em datas nem números.

  2. Explica o que não se conhece

    Por baixo da Mercearias do Minho acrescenta «cadeia de supermercados, 4.000 trabalhadores, Portugal». O mestrado integrado vai com a duração: cinco anos, 300 créditos ECTS.

  3. Ajusta os dados pessoais

    Para Austin tira a fotografia, a data de nascimento e o estado civil. Para Berlim acrescenta uma fotografia profissional, como é habitual lá, e assina e data o CV.

  4. Prepara o que acompanha

    Para Berlim escreve uma carta de uma página A4 e junta o diploma traduzido para inglês num só PDF. Para Austin, só o résumé de duas páginas, porque o anúncio não pede carta.

Exemplo
O cabeçalho e o primeiro cargo de Marta Exemplo, nas duas versões

Berlim: «Marta Exemplo · Data Engineer · Braga, Portugal (disponível para me mudar a partir de março) · +351 910 000 000 · fotografia profissional no canto superior direito». No fim: «Braga, 1 de novembro de 2026» e a assinatura.

Austin: «Marta Exemplo · Data Engineer · Braga, Portugal · +351 910 000 000». Sem fotografia, sem data de nascimento nem estado civil e sem referir a situação de visto.

Nas duas: «Data Engineer, Mercearias do Minho (cadeia de supermercados, 4.000 trabalhadores, Portugal), de 2021 até hoje. Reduzi em 40 % o tempo de carregamento do relatório diário de vendas ao migrar os processos para a cloud».

O que não mudou em nenhuma versão: o cargo, a empresa, as datas e os 40 %.

A revisão antes de o enviar para fora

Antes de enviar, lê o teu CV como se fosses alguém desse país que não te conhece nem conhece as tuas empresas. Se alguma resposta for «não», essa linha corrige-se.

  • Está na língua do anúncio, com os cargos nomeados como lá se nomeiam?
  • Cada empresa pouco conhecida tem a sua meia linha de setor, dimensão e país?
  • Os dados pessoais são os que se esperam nesse país, e nem um a mais?
  • Os números estão em percentagem ou numa moeda que lá se entenda?
  • O telemóvel tem o indicativo, e o CV diz onde estás e quando podes começar?
  • Vai o que esse país espera junto do CV, como a carta ou as cópias dos diplomas?

Perguntas frequentes

Como se faz um CV em inglês para trabalhar no estrangeiro?

Um CV em inglês segue as regras do país da oferta: nos Estados Unidos, um résumé de uma ou duas páginas sem fotografia nem idade; no Reino Unido, um CV sem idade, estado civil nem nacionalidade. Cargos e cursos dizem-se como lá, não palavra a palavra.

Como fazer um CV para trabalhar no estrangeiro?

Parte de um CV completo e adapta-o aos costumes do país da oferta: a língua, os dados pessoais que entram, a fotografia onde é habitual e o que acompanha o CV. Explica empresas, cargos e cursos que lá não se conhecem.

Tenho de pôr fotografia num CV para outro país?

Depende do destino. Nos Estados Unidos e no Reino Unido não entra; na Alemanha é habitual, conforme o setor, e em Espanha não é imprescindível. Se o anúncio pedir fotografia ou pedir que não a ponhas, faz o que pede.

Em que língua envio o CV se o anúncio estiver em inglês?

Na língua em que o anúncio está escrito, salvo indicação em contrário. Um anúncio em inglês de uma empresa alemã responde-se em inglês; se também falas alemão, indica-o nas línguas com o teu nível.

É preciso reconhecer o curso para me candidatar a um emprego no estrangeiro?

Nem sempre: depende do país e de a tua profissão ser regulada lá. Os centros ENIC-NARIC e portais oficiais como o «Anerkennung in Deutschland» explicam se é necessário e como funciona o processo.

Ponho a nacionalidade no CV para trabalhar no estrangeiro?

No Reino Unido e nos Estados Unidos não se põe, nem a situação de visto. Noutros países não é um dado que se espere no CV: se a empresa precisar de o saber, vai perguntar-te durante o processo.

Fontes

  1. EURES (Comissão Europeia), Condições de vida e de trabalho: Espanha
  2. EURES (Comissão Europeia), Condições de vida e de trabalho: Alemanha
  3. Make it in Germany (Governo federal alemão), Application
  4. Pomona College, Career Development Office, U.S. Résumé Tips for International Students
  5. National Careers Service (Reino Unido), CV sections
  6. Destatis (Serviço Federal de Estatística alemão), Labour mobility in the EU, 2026
  7. Ministério espanhol da Ciência, Inovação e Universidades, rede ENIC-NARIC
  8. Anerkennung in Deutschland, portal oficial do Governo federal alemão sobre o reconhecimento de qualificações estrangeiras
  9. Argentina.gob.ar, El camino hacia tu próximo empleo (guia oficial de procura de emprego)
  10. EURES (Comissão Europeia), Cria o teu CV Europass
  11. Europass (Comissão Europeia), ferramenta gratuita para aprender e trabalhar na Europa

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