CV e ATS

Lacunas no currículo: explicá-las sem mentir e sem contar demais

As lacunas no currículo explicam-se com uma linha honesta no sítio certo e uma resposta curta na entrevista: o motivo, o que fizeste e porquê agora. Escondê-las costuma correr pior do que explicá-las.

Equipa CernoriaAtualizado a 23 de outubro de 202612 min de leitura

O essencial

  • Uma lacuna no currículo é um período sem trabalho entre dois empregos, ou desde o último. É frequente e, bem explicada, quase nunca afasta alguém de um processo.
  • Uma lacuna de menos de três meses não precisa de explicação; acima de seis, convém dar-lhe uma linha própria, com datas de mês e ano.
  • A explicação muda com o motivo: cuidar de alguém, estudar, um despedimento, a saúde ou uma procura longa contam-se de forma diferente, mas nunca com nada inventado.
  • Na entrevista bastam três frases: o que aconteceu, o que fizeste nesse tempo e porque estás pronto para esta função agora.

O que é uma lacuna no currículo e porque pesa menos do que pensas

Uma lacuna no currículo é qualquer período sem trabalho que salta à vista quando alguém lê as tuas datas: os meses entre um emprego e outro, ou o tempo desde a tua última função. Costuma preocupar-te muito mais a ti do que a quem lê. O que levanta dúvidas não é a lacuna em si, mas uma lacuna sem explicação, porque deixa quem lê imaginar o pior.

Os motivos mais comuns são também os mais normais: cuidar de um filho ou de um familiar, voltar a estudar, um despedimento coletivo, um problema de saúde, uma mudança de cidade ou uma procura que se prolongou. A Organização Internacional do Trabalho estima que 748 milhões de pessoas no mundo estão fora da força de trabalho por responsabilidades de cuidado; na Europa e Ásia Central, 21 % das mulheres fora da força de trabalho apontam esse motivo em primeiro lugar. Uma pausa na carreira não é uma raridade que se deva esconder.

748 milhões

de pessoas com 15 ou mais anos estavam fora da força de trabalho em 2023 por responsabilidades de cuidado, segundo a OIT. Destas, 708 milhões eram mulheres.

Fonte: Organização Internacional do Trabalho (OIT), Unpaid care work prevents 708 million women from participating in the labour market, 29 de outubro de 2024
21 %

das mulheres da Europa e Ásia Central fora da força de trabalho apontam o cuidado como motivo principal, segundo a mesma estimativa da OIT.

Fonte: Organização Internacional do Trabalho (OIT), Unpaid care work prevents 708 million women from participating in the labour market, 29 de outubro de 2024
62 %

das quase 23 000 pessoas inquiridas pelo LinkedIn em todo o mundo em janeiro de 2022 disse ter feito pelo menos uma pausa na carreira.

Fonte: LinkedIn, inquérito mundial sobre pausas na carreira (22 995 pessoas, janeiro de 2022), noticiado pela Allwork.Space, abril de 2022

Quando uma lacuna precisa de explicação e quando não

Nem todo o período sem trabalho merece uma linha no currículo. Um mês entre dois empregos faz parte de qualquer mudança e ninguém te vai perguntar por isso. Quanto mais longa a lacuna, mais vale a pena dar contexto, porque quem lê faz as contas às datas em segundos.

O guia do e-konomista sobre o tema resume bem a prática em Portugal: datas com mês e ano, uma linha própria para pausas de mais de alguns meses, como «Procura ativa de emprego e voluntariado», e uma frase neutra, como «pausa por motivos familiares», quando preferes não entrar em pormenores. A tabela seguinte é o critério que usamos na Cernoria para decidir quanto contar consoante a duração.

Quanto explicar conforme a duração da lacuna
DuraçãoNo CVNa entrevista
Menos de 3 mesesNada. As datas de mês e ano chegamSó se te perguntarem, numa frase
De 3 a 6 mesesOpcional: uma linha se fizeste algo concreto (um curso, um projeto)Tem-na preparada: o motivo e o que fizeste
De 6 meses a 2 anosUma linha própria com as datas e o motivo em poucas palavrasAs três frases: o que aconteceu, o que fizeste, porquê agora
Mais de 2 anosUma linha própria e, se possível, o que manteve as tuas competências atualizadasO mesmo, mais como te puseste a par da tua área
Várias lacunas curtasAgrupa contratos a termo, trabalho temporário ou recibos verdes sob um mesmo títuloExplica o padrão uma vez, não cada lacuna
É o critério da Cernoria, não uma regra oficial. Ajusta-o à função: em áreas que mudam depressa, uma lacuna longa pede que mostres como te mantiveste atualizado.

Como mostrar lacunas no currículo sem as esconder

A tentação mais comum é tapar a lacuna: pôr só os anos em vez dos meses, prolongar a data de saída de um emprego ou inventar uma função. As três coisas descobrem-se com facilidade, com uma referência, com o teu certificado de trabalho ou com uma pergunta simples na entrevista, e transformam uma lacuna inofensiva numa dúvida sobre a tua honestidade. O que resulta é dar-lhe um nome.

  1. Usa datas de mês e ano em todo o CV

    Assim a lacuna aparece com o tamanho que tem. Anos numa função e meses noutra chamam mais a atenção do que a própria lacuna.

  2. Dá-lhe uma linha própria por ordem cronológica

    Coloca-a onde o período aconteceu, com as datas e o motivo em poucas palavras: «Pausa por motivos familiares», «Formação em análise de dados», «Procura ativa de emprego e projetos como freelancer».

  3. Acrescenta o que fizeste, se ajudar a candidatura

    Um curso, voluntariado, trabalho a recibos verdes ou um projeto próprio vão debaixo dessa linha, no mesmo formato de um emprego: o que fizeste e que resultado teve.

Motivo a motivo: o que pôr no currículo e o que dizer na entrevista

Cada motivo conta-se de maneira diferente. O que têm em comum é uma explicação curta, sem pedidos de desculpa, que termina a olhar para a frente: o que trazes à função e porque estás disponível agora. Esta tabela é o ponto de partida que usamos na Cernoria para cada caso.

Lacunas no currículo, motivo a motivo
MotivoComo indicá-lo no CVO que dizer na entrevistaA evitar
Cuidar de um filho ou de um familiar«Pausa por motivos familiares», com as datasQue foi uma decisão, que essa fase terminou ou está organizada e que agora tens disponibilidade totalPormenores sobre a saúde do familiar ou a tua vida privada
Estudos ou formaçãoComo qualquer outra formação, com instituição, curso e datasO que aprendeste e como se aplica à funçãoApresentá-la como forma de «encher o tempo»
Despedimento ou reestruturaçãoNada de especial: a função termina na data realUma frase sobre a decisão da empresa, sem culpas, e o que fizeste depoisFalar mal do empregador anterior
Saúde«Pausa por motivos pessoais» ou «de saúde», sem diagnósticoQue estás em condições de trabalhar; o pormenor médico não é precisoContar mais do que te deixa confortável
Procura de emprego longaO que fizeste entretanto: cursos, trabalhos pontuais, voluntariadoQue tipo de função procuravas e porque esta encaixaDizer «não encontrava nada» e ficar por aí
Viagem, mudança ou projeto próprioUma linha com o projeto ou a mudança e o que aprendesteO que essa fase te deu e porque queres agora voltar a um empregoDar a ideia de que vais sair outra vez em breve
As frases são pontos de partida. Escreve-as com as tuas palavras: uma resposta decorada nota-se.

O despedimento: como contá-lo sem falar mal de ninguém

O despedimento é a lacuna que mais angustia e a que melhor se resolve numa frase. Se foi um despedimento coletivo, uma extinção do posto de trabalho ou um encerramento, di-lo: foi uma decisão da empresa, não um juízo sobre ti. «A empresa fechou o escritório de Braga em março e o meu posto foi extinto» percebe-se sem mais perguntas. É melhor falar disso na entrevista do que no CV, descrevendo a decisão da empresa e não a tua pessoa.

Se o despedimento teve a ver com o teu desempenho, uma resposta honesta tem três partes: o que aconteceu numa frase, o que aprendeste e o que fazes de diferente desde então. Ninguém espera um percurso perfeito; querem ver que percebeste o que correu mal. O que te afasta mesmo é culpar a chefia anterior ou os colegas, porque quem ouve imagina-se a ser o próximo.

Saúde e vida pessoal: quanto contar

Uma lacuna por motivos de saúde, tua ou de alguém próximo, explica-se sem qualquer pormenor médico. «Tirei um tempo por motivos de saúde que já estão resolvidos» é uma resposta completa. O que a empresa precisa de saber é se hoje consegues fazer o trabalho, não o que te aconteceu. Partilha só o que te deixa confortável, tanto na saúde física como na mental.

O mesmo vale para outros temas pessoais, como uma separação, um luto ou uma situação familiar. Podes chamar-lhes «motivos pessoais» e passar logo ao que interessa para a função. Se insistirem, repetir com calma que foi uma fase pessoal já encerrada costuma chegar.

Na Cernoria vemos assim: uma lacuna não se explica para te justificares, explica-se para que quem lê não tenha de adivinhar. Uma linha honesta no CV e três frases tranquilas na entrevista resolvem o assunto melhor do que qualquer data esticada.

Uma reflexão da equipa Cernoria

Como explicar uma lacuna na entrevista em 30 segundos

A resposta curta é a que funciona melhor. Se te alongas, parece que o tema te incomoda ou que há mais alguma coisa. Prepara-a antes, di-la em voz alta duas ou três vezes e termina sempre com algo sobre a função, para a conversa seguir por aí.

  1. O que aconteceu, numa frase

    «Entre março de 2024 e junho de 2025 dediquei-me a cuidar do meu pai.» Sem rodeios e sem pedir desculpa.

  2. O que fizeste nesse tempo

    «Entretanto terminei um curso de Excel avançado e fiz a contabilidade de um pequeno negócio de família.» Se não fizeste nada ligado ao trabalho, di-lo na mesma e passa ao terceiro passo.

  3. Porquê agora e porquê esta função

    «Essa situação já está organizada e tenho disponibilidade total. Esta função interessa-me porque usa exatamente o que fazia antes: controlo de custos e relatórios mensais.»

Um exemplo do princípio ao fim: a lacuna da Laura

Um caso inventado para ver o método aplicado. A Laura Exemplo trabalhou seis anos como assistente de contabilidade na Abastecimentos do Douro até fevereiro de 2024. Esteve 16 meses sem trabalhar a cuidar da mãe e, em junho de 2025, começou a candidatar-se a funções de técnica de contabilidade. O primeiro CV só tinha anos e, nas entrevistas, ela bloqueava ao chegar a essa parte.

Exemplo
O CV e a resposta da Laura Exemplo, antes e depois

Antes, no CV: «Abastecimentos do Douro, assistente de contabilidade, 2018 a 2024». A data de saída escondia a lacuna pela metade e a primeira pergunta de cada entrevista era o que tinha feito desde então.

Depois, no CV: «Abastecimentos do Douro, assistente de contabilidade, março 2018 a fevereiro 2024» e por baixo uma linha própria: «Pausa por motivos familiares, março 2024 a junho 2025. Curso de Excel avançado e Power BI (40 horas), 2025».

Depois, na entrevista: «Em 2024 deixei de trabalhar para cuidar da minha mãe. Nesse tempo fiz um curso de Power BI e tratei das contas de uma pequena loja da família. Essa situação está resolvida e tenho disponibilidade total. Esta função interessa-me porque os fechos mensais e os relatórios são o que mais fiz na Abastecimentos do Douro».

O que mudou: a lacuna deixou de ser uma surpresa. Quem lê já conhece o motivo antes da entrevista e a conversa passa logo para a experiência de contabilidade.

O que não convém fazer com uma lacuna no currículo

Antes de enviares o CV, confirma que não aparece nenhum destes atalhos. Todos parecem proteger-te e todos acabam por pesar mais do que a lacuna.

  • Prolongar a data de saída de um emprego para a lacuna desaparecer.
  • Inventar uma função, uma empresa ou um trabalho que não existiu.
  • Pôr datas que não coincidem com o teu certificado de trabalho.
  • Pedir desculpa pela lacuna, no CV ou na entrevista.
  • Dar pormenores médicos ou familiares que ninguém pediu.
  • Deixar sem explicação uma lacuna de mais de seis meses.

Perguntas frequentes

Como explicar lacunas no currículo numa entrevista?

Com três frases curtas: o que aconteceu, o que fizeste nesse tempo e porque estás pronto para esta função agora. Prepara-a com antecedência, não peças desculpa e termina a falar do trabalho, para a conversa continuar por aí.

Quanto tempo sem trabalhar conta como lacuna no currículo?

Na prática, a partir de uns três meses podem perguntar-te por ela, e acima de seis convém dar-lhe uma linha própria no CV. Um ou dois meses entre empregos é normal e não precisa de explicação.

Posso pôr só o ano nas datas para tapar uma lacuna?

Não convém. Anos numa função e meses noutra chamam mais a atenção do que a lacuna, e as datas reais aparecem no teu certificado de trabalho. Usa mês e ano em todo o CV e explica a lacuna numa linha.

Tenho de pôr no CV que fui despedido?

Não é preciso escrevê-lo no CV: a função termina na data real e o motivo conta-se na entrevista, se perguntarem. Se foi um despedimento coletivo ou uma extinção do posto, di-lo assim; se teve a ver com o desempenho, conta o que aprendeste.

O que ponho no currículo se estive a cuidar de um familiar?

Uma linha própria com as datas, como «Pausa por motivos familiares», no sítio onde aconteceu no teu percurso. Se nesse tempo fizeste um curso ou trabalhos pontuais, acrescenta-os por baixo. Não precisas de dar pormenores sobre a saúde de ninguém.

Fontes

  1. Organização Internacional do Trabalho (OIT), Unpaid care work prevents 708 million women from participating in the labour market, 29 de outubro de 2024
  2. LinkedIn, inquérito mundial sobre pausas na carreira (22 995 pessoas, janeiro de 2022), noticiado pela Allwork.Space, abril de 2022
  3. e-konomista, Parou de trabalhar? Como explicar isso no currículo, julho de 2026

Continuar a ler