Entrevistas

Perguntas de entrevista de emprego: as 15 que mais se repetem e como responder

As perguntas de entrevista de emprego repetem-se porque quase todas as funções avaliam o mesmo: quem és, como trabalhaste até agora e se encaixas no lugar. Com seis histórias bem preparadas e o método STAR consegues responder às 15 mais comuns.

Equipa CernoriaAtualizado a 26 de outubro de 202615 min de leitura

O essencial

  • O método STAR é uma forma de contar um facto passado em quatro partes: a situação, a tarefa que te cabia, a ação que tomaste e o resultado.
  • As entrevistas estruturadas, com as mesmas perguntas para todos os candidatos e uma escala para pontuar, preveem melhor o desempenho do que uma conversa livre.
  • Nem todas as perguntas pedem STAR: «fala-me de ti» ou «porque queres esta função» resultam melhor com presente, passado e futuro.
  • Seis histórias tuas bem preparadas chegam para responder às 15 perguntas mais comuns, mudando a parte de cada história que pões à frente.

Porque é que as perguntas de entrevista se repetem tanto

Quer sejas entrevistado por uma empresa de recrutamento, pelos recursos humanos de um grande grupo ou pelo dono de uma PME, quase todas as entrevistas acabam por girar à volta das mesmas perguntas. As empresas precisam de comparar vários candidatos para a mesma vaga, e para comparar têm de perguntar o mesmo. Quanto mais profissional é o processo, mais parecidas são as perguntas.

Uma entrevista estruturada é a que faz as mesmas perguntas a todos os candidatos e pontua as respostas com uma escala definida antes. O guia do Office of Personnel Management do governo dos Estados Unidos (OPM) recomenda escalas de 3 a 7 níveis e distingue dois tipos de perguntas: as comportamentais, que pedem um facto realmente vivido, e as situacionais, que apresentam um caso hipotético da função.

A meta-análise de Paul Sackett e da sua equipa, publicada em 2022 no Journal of Applied Psychology, avaliou quanto cada método de seleção prevê o desempenho futuro. A entrevista estruturada ficou em primeiro lugar, muito acima da entrevista livre. A conclusão é prática: se as perguntas são previsíveis, prepará-las não é fazer batota, é fazer o trabalho de casa.

0,42

é a validade da entrevista estruturada para prever o desempenho, a mais alta dos métodos revistos por Sackett e pela sua equipa em 2022 (escala de 0 a 1).

Fonte: Master HR, New study providing updated validity estimates (resumo das estimativas de Sackett e da sua equipa)
0,19

é a validade da entrevista não estruturada, a conversa livre sem perguntas fixas nem escala, na mesma revisão.

Fonte: Master HR, New study providing updated validity estimates (resumo das estimativas de Sackett e da sua equipa)
3 a 7

níveis é o que recomenda o guia de entrevistas estruturadas do OPM norte-americano para a escala com que se pontua cada resposta.

Fonte: U.S. Office of Personnel Management (OPM), Structured Interviews

O que é o método STAR e como se constrói uma resposta

O método STAR é uma estrutura para contar um exemplo concreto da tua experiência. As iniciais vêm do inglês: Situation (situação), Task (tarefa), Action (ação) e Result (resultado). O serviço público de orientação do Reino Unido, o National Careers Service, resume-o assim: a situação com que tiveste de lidar, a tarefa que te deram, a ação que tomaste e o que aconteceu em resultado, incluindo o que aprendeste.

Serve para as perguntas comportamentais, as que começam por «conta-me uma vez em que…» ou «dá-me um exemplo de…». Quem te entrevista não quer a tua teoria sobre como se resolve um conflito: quer saber como resolveste um. «Tento sempre ouvir toda a gente» não se pode pontuar; uma resposta STAR, sim.

As quatro partes de uma resposta STAR
ParteO que respondeParte do tempoErro comum
SituaçãoOnde e quando, em uma ou duas frasesCerca de 10 %Contar a história da empresa inteira
TarefaO que cabia a ti resolverCerca de 10 %Confundi-la com a tarefa da equipa
AçãoO que fizeste, passo a passoCerca de 60 %Dizer «fizemos» sem explicar a tua parte
ResultadoO que mudou, com um número ou um facto, e o que aprendesteCerca de 20 %Acabar sem resultado ou com um adjetivo
A divisão do tempo é o critério que usamos na Cernoria, não uma regra oficial. Uma resposta completa dura entre um e dois minutos.

As 15 perguntas de entrevista de emprego mais comuns e o que avalia cada uma

Esta é a lista com que preparamos uma entrevista na Cernoria. Baseia-se nos guias públicos de orientação e nos tipos de pergunta descritos pelo OPM, não num inquérito com percentagens. Agrupamo-las em quatro famílias, porque cada família se responde com uma estrutura diferente.

As 15 perguntas e como responder
PerguntaO que avaliaEstrutura
Fala-me de tiSe sabes resumir o teu perfil para esta funçãoPresente, passado e futuro
Porque queres esta função?Se te informaste e se o interesse é realFunção, empresa e tu
Porque queres sair do teu emprego atual?O motivo e se falas mal dos outrosFacto breve e o que procuras
Quais são os teus pontos fortes?Se sabes o que fazes bem e o consegues provarPonto forte e um facto
Qual é o teu maior ponto fraco?Autocrítica e vontade de melhorarFraqueza real e o que fazes com ela
Conta-me um conflito com um colegaComo trabalhas com os outrosSTAR
Conta-me um erro que cometesteResponsabilidade e aprendizagemSTAR
Conta-me uma vez em que trabalhaste sob pressãoOrganização e prioridadesSTAR
Qual é a tua maior conquista?O que valorizas e que resultados obténsSTAR
Conta-me uma vez em que convenceste alguémInfluência e comunicaçãoSTAR
Conta-me uma mudança a que tiveste de te adaptarFlexibilidade e aprendizagemSTAR
O que farias se um cliente se queixasse de algo que não foi culpa tua?Critério num caso da funçãoPassos e porquê
O que farias nos primeiros 90 dias?Se percebes a funçãoOuvir, organizar, propor
Qual é a tua pretensão salarial?Se conheces o mercado e se há acordo possívelIntervalo fundamentado
Tens alguma pergunta para nós?Interesse e critérioDuas ou três perguntas tuas
As perguntas 6 a 11 são comportamentais e pedem STAR. A 12 e a 13 são situacionais: apresentam um caso hipotético.

Perguntas sobre ti: cinco respostas modelo

As cinco primeiras não pedem um facto passado mas uma apresentação, e respondidas com STAR soam forçadas. Resulta melhor outra estrutura: o que fazes hoje, o que fizeste antes e te trouxe até aqui, e o que procuras agora, sempre ligado à função. Os exemplos são da Inês Exemplo, uma analista de operações inventada do Porto que se candidata a coordenadora de logística.

Exemplo
Respostas modelo da Inês Exemplo (1 a 5)

1. Fala-me de ti: «Hoje sou analista de operações na Logística Douro, onde faço a gestão de stocks de dois armazéns. Antes trabalhei três anos no apoio ao cliente, e isso ensinou-me a olhar para cada processo do lado de quem espera pela encomenda. Agora quero coordenar uma equipa, e por isso esta função interessou-me».

2. Porque queres esta função?: «Porque pede exatamente o que faço todos os dias, a gestão de stocks e a relação com as transportadoras, e acrescenta o que quero fazer: coordenar pessoas. Vi também que vão abrir um armazém na Maia, e montar processos de raiz é o que mais gosto de fazer».

3. Porque queres sair do teu emprego?: «Aprendi muito, mas na minha empresa não estão previstas funções de coordenação nos próximos anos. Procuro esse passo e prefiro dá-lo numa empresa que está a crescer».

4. Quais são os teus pontos fortes?: «Organizar processos. Quando entrei, o inventário fazia-se uma vez por ano e havia sempre diferenças. Propus o inventário rotativo por zonas e num ano a diferença desceu de 4 % para 1 %».

5. Qual é o teu maior ponto fraco?: «Custa-me delegar: tenho tendência para verificar tudo eu. Desde que formei duas pessoas novas no ano passado, uso uma lista de verificação para que cada uma confira o seu trabalho, e eu só reviso uma amostra por semana».

Perguntas comportamentais: seis respostas STAR completas

As perguntas 6 a 11 são aquelas em que o STAR rende de verdade. O guia do OPM explica a ideia de fundo: o melhor indicador de como alguém vai trabalhar é como trabalhou em situações parecidas. Cada resposta da Inês segue as quatro partes, com a ação como a parte mais longa.

Exemplo
Respostas STAR da Inês Exemplo (6 a 11)

6. Um conflito: «No ano passado o diretor comercial prometia entregas em 24 horas que o armazém não conseguia cumprir (situação). Cabia-me resolver isso sem travar as vendas (tarefa). Juntei os dados de um mês, mostrei-lhe a que zonas chegávamos em 24 horas e a quais não, e construímos juntos uma tabela de prazos por zona que os comerciais passaram a usar com os clientes (ação). As reclamações por atraso caíram para metade em dois meses, e aprendi a levar dados em vez de queixas (resultado)».

7. Um erro: «No meu primeiro ano registei mal uma encomenda grande e ela seguiu para Faro em vez de Viseu (situação). Tinha de recuperar a entrega e evitar que se repetisse (tarefa). Avisei logo a minha chefe, combinei com a transportadora um reenvio para o dia seguinte e propus uma dupla verificação para encomendas com mais de 50 caixas (ação). O cliente recebeu com um dia de atraso, a verificação continua e não voltou a acontecer (resultado)».

8. Sob pressão: «Na época do Natal faltaram duas pessoas do turno (situação). Era preciso expedir 400 encomendas em dois dias (tarefa). Reorganizei a preparação por zonas, pedi ajuda aos administrativos para o embalamento e dei prioridade às encomendas com data prometida (ação). Saíram 385 a tempo e as outras 15 com aviso prévio ao cliente (resultado)».

9. A maior conquista: «O inventário anual fechava sempre com grandes diferenças (situação). Propus-me reduzi-las sem parar o armazém (tarefa). Desenhei o inventário rotativo por zonas, montei a folha de cálculo e formei as quatro pessoas do turno para o fazerem em 20 minutos por dia (ação). Num ano a diferença desceu de 4 % para 1 % e o fecho anual passou de três dias para um (resultado)».

10. Convencer alguém: «Queria mudar de transportadora numa zona com muitos atrasos, mas as compras preferiam a habitual por causa do preço (situação). Tinha de mostrar que a mudança compensava (tarefa). Calculei quanto nos tinham custado seis meses de devoluções e reenvios, comparei com o tarifário da outra transportadora e propus um teste de um mês (ação). O teste correu bem e a mudança ficou, com um custo total mais baixo (resultado)».

11. Adaptar-se a uma mudança: «A empresa mudou de sistema de gestão de armazém a meio do ano (situação). Cabia-me garantir que as expedições continuavam durante a migração (tarefa). Fiz a formação antes dos outros, escrevi um guia de uma página com os passos mais usados e fiquei como referência para as dúvidas do turno (ação). Na primeira semana expedimos 90 % do volume habitual e na segunda, 100 % (resultado)».

Perguntas situacionais e de fecho: quatro respostas modelo

As perguntas situacionais apresentam um caso que ainda não viveste. Segundo o OPM, assentam noutra ideia: o que uma pessoa diz que faria está muito ligado ao que faz. Respondem-se com passos e com o porquê de cada um; se tiveres um caso real parecido, junta-o no fim. As duas perguntas de fecho pedem preparação concreta: um número fundamentado e perguntas tuas.

Exemplo
Respostas modelo da Inês Exemplo (12 a 15)

12. Um cliente queixa-se de algo que não foi culpa tua: «Primeiro ouço a reclamação toda sem discutir de quem foi a culpa. Depois digo-lhe o que vou fazer e até quando, e descubro onde falhou. O cliente quer que se resolva; a culpa trato depois, internamente. Aconteceu-me com uma transportadora que perdeu uma entrega: o cliente nunca soube de quem foi o erro, soube que no dia seguinte tinha a encomenda».

13. Os primeiros 90 dias: «No primeiro mês, ouvir: conhecer a equipa, os processos e os números do armazém. No segundo, arrumar as duas ou três coisas que mais tempo fazem perder. No terceiro, propor mudanças com dados e com a equipa de acordo».

14. Pretensão salarial: «Pelo que vi em anúncios parecidos na zona do Porto e pela minha experiência, procuro entre X e Y euros brutos mensais. Também gostava de conhecer o resto do pacote». Em Portugal fala-se normalmente em bruto mensal: diz o teu valor assim e confirma se é pago em 14 meses.

15. Tens perguntas?: «Como se mede o sucesso nesta função no primeiro ano?», «Qual é hoje a maior dificuldade da equipa?» e «Quais são os próximos passos?». Nunca «não, está tudo claro»: é a última impressão que deixas.

Um exemplo do princípio ao fim: de uma lembrança a uma resposta STAR

Como a Inês construiu a resposta sobre o conflito com o comercial, desde que se lembrou do caso até o conseguir contar em minuto e meio. O método serve para qualquer história.

  1. Escolhe o facto

    A Inês reviu o último ano à procura de um desacordo real com outro departamento. Pôs de lado uma discussão menor e escolheu a dos prazos de entrega, porque tinha um resultado mensurável.

  2. Escreve as quatro partes em separado

    Uma frase de situação, uma de tarefa, quatro ou cinco de ação e uma de resultado. Escreveu numa folha, sem se preocupar com o estilo.

  3. Põe um número no resultado

    Consultou o registo de reclamações para não dizer um número inventado: tinham passado de cerca de 40 para cerca de 20 por mês. Disse «para metade» porque era o que conseguia defender.

  4. Conta a tua parte com verbos na primeira pessoa

    Trocou «fizemos uma tabela» por «juntei os dados, mostrei-lhos e construímo-la juntos», para que se percebesse o que fez ela e o que fez a equipa.

  5. Ensaia-a em voz alta, com relógio

    A primeira versão durava três minutos. Cortou o contexto sobre a empresa e ficou em minuto e meio. Depois preparou o que responder se lhe perguntassem como reagiu o diretor comercial.

O banco de seis histórias: o método da Cernoria

Ninguém precisa de quinze histórias diferentes. O que usamos na Cernoria para preparar uma entrevista é um banco de seis histórias tuas, cada uma contada com STAR, que se reutilizam mudando a parte que vai à frente. A história do inventário serve como maior conquista, como ponto forte e como exemplo de liderança, conforme o que te perguntarem.

Seis histórias que cobrem as perguntas comportamentais
História que preparasPerguntas a que responde
Uma conquista com um resultado mensurávelMaior conquista, pontos fortes, porque devemos escolher-te
Um desacordo com uma pessoa ou departamentoConflito, trabalho em equipa, convencer alguém
Um erro teu e o que mudaste depoisErro, ponto fraco, aprendizagem
Uma situação com pouco tempo ou poucos recursosPressão, prioridades, organização
Uma mudança que não escolhesteAdaptação, aprendizagem rápida, incerteza
Uma vez em que ajudaste ou formaste alguémLiderança, comunicação, trabalho em equipa
Se o anúncio pede algo muito específico (clientes difíceis, gestão de orçamento), junta uma sétima história para isso.

Na equipa da Cernoria vemos assim: uma entrevista não se ganha com respostas perfeitas, mas com factos verdadeiros contados com ordem. Seis histórias que consegues defender perante qualquer pergunta de seguimento valem mais do que quinze frases decoradas.

Uma reflexão da equipa Cernoria

Como treinar e lidar com as perguntas de seguimento

O National Careers Service sublinha dois pontos que vemos falhar muitas vezes: contar os exemplos de forma natural para não parecer um guião, e estar preparado para as perguntas de seguimento sobre cada exemplo. Quem entrevista costuma aprofundar exatamente onde a história tem um buraco: o que fizeste tu, porque escolheste isso, o que farias de outra forma.

  • Ensaia cada história em voz alta, com relógio, até durar entre um e dois minutos.
  • Não a decores palavra a palavra: memoriza as quatro partes e o número do resultado.
  • Para cada história, prepara a resposta a «o que farias de outra forma?».
  • Tem o anúncio à mão e marca que história responde a cada requisito.
  • Se não tens um exemplo exato, di-lo e conta o mais parecido; uma história inventada não resiste ao seguimento.
  • Depois de cada entrevista, aponta as perguntas que te fizeram: da próxima vez vais reconhecer a família.

Perguntas frequentes

Quais são as perguntas de entrevista de emprego mais comuns?

As que mais se repetem são «fala-me de ti», porque queres a função, porque queres sair do emprego, pontos fortes e fracos, várias comportamentais (conflito, erro, pressão, conquista) e a pretensão salarial. Seis histórias preparadas cobrem quase todas.

O que é o método STAR numa entrevista?

É uma forma de responder a perguntas sobre factos passados em quatro partes: situação, tarefa, ação e resultado. Torna a resposta concreta e fácil de avaliar, e a ação, o que fizeste tu, ocupa a maior parte do tempo.

Quanto tempo deve durar uma resposta na entrevista?

Entre um e dois minutos para uma resposta STAR, e menos para perguntas curtas como porque queres a função. Se passares dos dois minutos há quase sempre contexto a mais: encurta a situação e fica com a ação e o resultado.

Como respondo à pergunta da pretensão salarial?

Com um intervalo em euros brutos mensais baseado em anúncios parecidos na tua zona, confirmando se o valor é pago em 14 meses. Um intervalo fundamentado mostra que te informaste; um número ao acaso tira-te margem para negociar.

O que faço se não tenho experiência para responder com STAR?

Usa factos dos estudos, estágios, voluntariado ou projetos pessoais: o método funciona da mesma forma. Um trabalho de grupo na faculdade com um desacordo real e um resultado concreto é uma história STAR válida.

Fontes

  1. Paul R. Sackett, Charlene Zhang, Christopher M. Berry e Filip Lievens, Revisiting meta-analytic estimates of validity in personnel selection, Journal of Applied Psychology, 2022
  2. Master HR, New study providing updated validity estimates (resumo das estimativas de Sackett e da sua equipa)
  3. U.S. Office of Personnel Management (OPM), Structured Interviews
  4. National Careers Service (Reino Unido), The STAR method

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