Entrevistas

Entrevista de marketing: o que cada pergunta avalia e como responder

As entrevistas de marketing são muito parecidas de empresa para empresa, mas cada pergunta procura algo diferente do que parece. Se sabes o que estão a avaliar, sabes o que contar.

Equipa CernoriaAtualizado a 13 de outubro de 202610 min de leitura

O essencial

  • Por trás de cada pergunta há uma só coisa que querem avaliar: visão de negócio, honestidade, colaboração ou capacidade de síntese. Responde a isso.
  • Uma boa resposta de marketing termina num efeito no negócio (vendas, custo de aquisição, retenção), não numa ação como «lançámos uma campanha».
  • Seis histórias STAR bem preparadas, cada uma com o seu número, cobrem a maior parte de uma entrevista.
  • As perguntas sobre IA e sobre medir com menos dados de acompanhamento já são habituais: leva um exemplo concreto para cada uma.
  • Estudar o marketing atual da empresa (anúncios, site, tom de voz) é o que mais distingue um candidato dos restantes.

O que cada pergunta avalia de facto

Quem recruta para uma função de marketing tem pouco tempo e muitas dúvidas: sabes definir prioridades, estás à vontade com números, vais entrar em choque com a equipa comercial, falas do que fizeste tu ou do que fez a tua equipa. Cada pergunta é uma forma indireta de esclarecer uma dessas dúvidas.

É por isso que a mesma resposta pode ser boa ou má consoante a pergunta. Descrever ao pormenor uma campanha brilhante não ajuda se te perguntaram como decides onde pôr o dinheiro. Esta tabela resume as perguntas que mais voltam, o que procuram e o que não pode faltar na tua resposta.

As perguntas que voltam sempre e o que está por trás
PerguntaO que estão a avaliarO que inclui uma resposta forte
«Fala-me de ti»Capacidade de síntese e adequação à funçãoNoventa segundos: o que fazes hoje, uma conquista com número e porquê esta função
«Como abordarias os primeiros 90 dias?»Se ouves antes de agirUm diagnóstico com dados, clientes e equipa; depois prioridades e um primeiro resultado mensurável
«Como decides em que canais investir?»Visão de negócioCusto de aquisição, valor do cliente, prazo de retorno e um pequeno teste antes de escalar
«Que métricas acompanhas todas as semanas?»Se distingues resultados de negócio de atividadeTrês ou quatro métricas de negócio e o que fazes quando uma delas mexe
«Conta-me uma campanha que não correu bem»Honestidade e capacidade de aprenderO sinal que te alertou, o que cortaste, quanto custou e o que mudaste depois
«Que orçamento geriste?»Escala e responsabilidade realValor, período, quem aprovava e como distribuías o dinheiro
«Como trabalhas com a equipa comercial?»Colaboração entre áreasUma definição partilhada de lead qualificado, uma reunião fixa e um painel comum
«O que achas do nosso marketing?»Preparação e critérioAlgo concreto que viste, o que funciona e uma hipótese de melhoria dita com prudência
Tabela elaborada pela equipa da Cernoria.

Como responder: o método STAR sem soar a guião

STAR quer dizer Situação, Tarefa, Ação e Resultado. Serve para não dispersar: duas frases de contexto, uma sobre o que era preciso alcançar, três ou quatro sobre o que fizeste tu (não a equipa) e, no fim, o número. O que não resulta é recitá-lo como um formulário; quem entrevista percebe logo uma resposta decorada.

O erro mais comum em marketing é ficar pela ação e nunca chegar ao resultado. «Lançámos uma campanha nas redes» não diz nada; «as encomendas de clientes novos subiram 18% em oito semanas» diz. E se o resultado foi mau, também se conta, juntamente com o que aprendeste. É assim que soa uma resposta completa:

Exemplo
Exemplo (pessoa, empresa e números inventados): «Conta-me uma campanha que não correu bem»

Situação: «Era responsável pela aquisição na Café Exemplo, uma loja online de café de especialidade no Porto. Na primavera de 2025, o custo por encomenda na Meta passou de 18 € para 31 € em seis semanas, mesmo antes da nossa época mais forte».

Tarefa: «Tinha de voltar a cerca de 20 € por encomenda sem perder volume, e explicá-lo à direção com dados, não com palpites».

Ação: «Separei os resultados entre clientes novos e clientes que já tinham comprado, e vi que quase metade do orçamento ia para pessoas que teriam comprado de qualquer forma. Excluí quem tinha encomendado nos últimos 180 dias, passei um quarto do investimento para a pesquisa do Google e testei três anúncios gravados por clientes reais contra os de estúdio».

Resultado: «Em oito semanas, o custo por encomenda desceu para 21 € e as encomendas de clientes novos subiram 18%. Desde então, vejo todas as semanas o custo por encomenda separado entre novos e recorrentes, porque o número total tinha-me escondido o problema».

Porque funciona: assume o erro sem culpar ninguém, mostra um raciocínio baseado em dados, diz o que a própria pessoa fez e termina com uma lição que mudou a forma como trabalha. Demora menos de dois minutos.

Perguntas de estratégia

  • «O que farias se tivéssemos de crescer 30% no próximo ano?» Leva o trabalho de casa feito: quem são os clientes, como vendem hoje e que canal parece subaproveitado. Fala de hipóteses que testarias, não de certezas.
  • «Como posicionarias o nosso produto face à concorrência?» Refere dois ou três concorrentes reais, o que promete cada um e que espaço fica livre. Mostra que olhaste para o mercado antes de entrar.
  • «Como lançarias algo novo com muito pouco orçamento?» Define prioridades: um público, uma mensagem, um ou dois canais e uma métrica para decidir se continuas. Poucas coisas bem medidas valem mais do que muitas feitas a meio.

Perguntas sobre métricas e orçamento

  • «Este mês as leads caíram 25%. O que vês primeiro?» Percorre o funil por ordem: tráfego, conversão da página, qualidade do formulário, alterações no acompanhamento. O que estão a avaliar é o teu método para encontrar a causa.
  • «Como medes uma campanha de marca?» Separa o que se pode atribuir do que não se pode: pesquisas pela marca, tráfego direto, notoriedade em inquéritos e uma comparação entre zonas ou períodos com e sem campanha.
  • «Se te cortarem 20% do orçamento, o que cortas primeiro?» O que tem pior retorno marginal, não o que gostas menos. Explica como o saberias e o que vigiarias depois do corte.

Perguntas sobre equipa e trabalho com outras áreas

  • «Como lidas com alguém da equipa que não está a render?» Expectativas claras, acompanhamento, ajuda concreta e uma data para rever. Evita os dois extremos: nem «falei com a pessoa e pronto» nem «tirei-a do projeto».
  • «Como farias a tua primeira contratação?» Que lacuna preenche, o que farias tu entretanto e como avaliarias ao fim de seis meses se a contratação resultou.
  • «Conta-me um desacordo com a área de produto ou com a direção.» Escolhe um real em que defendeste uma posição com dados e aceitaste a decisão final. Mostra que sabes discordar sem estragar a relação.

As perguntas novas: IA e medir com menos dados

Perguntas que há uns anos quase não apareciam são cada vez mais frequentes. Não querem saber se és especialista em tudo, mas se tens um critério próprio e um exemplo real.

  • «Como usas a IA no teu trabalho?» Conta um uso concreto (primeiras versões de anúncios, análise de comentários de clientes, variantes para testes) e como verificas o que produz. Dizer que não a usas não ajuda; dizer que a usas para tudo, também não.
  • «Como medes quando há cada vez menos dados de acompanhamento?» Fala de consentimento, dados próprios (registos, compras, CRM), testes de incrementalidade e de aceitar alguma incerteza na atribuição.
  • «Que modelo de atribuição usas?» Não há resposta certa. O que avaliam é se conheces os limites do modelo que usas e se evitas tomar grandes decisões com base num único relatório.

O caso prático

Em funções com responsabilidade é habitual pedirem um caso: um plano de lançamento, um diagnóstico do funil ou uma distribuição de orçamento. Normalmente dão alguns dias e depois apresentas numa reunião.

Conta mais o raciocínio do que o design dos diapositivos. Deixa claras as hipóteses que assumiste, os dados que te faltaram, o que farias primeiro e como saberias se resultou. Dez diapositivos com critério rendem mais do que trinta com gráficos bonitos.

Numa entrevista de marketing não ganha quem traz a ideia mais brilhante, mas quem sabe chegar a uma decisão com pouca informação e defendê-la com números. Isso vê-se na forma como raciocinas, não no que propões.

Uma reflexão da equipa Cernoria

Como preparar a entrevista numa semana

Não é preciso estudar cem perguntas. É preciso conhecer o anúncio, conhecer a empresa e ter as tuas histórias arrumadas. Este é um plano para cinco sessões curtas:

  1. Desmonta o anúncio

    Separa o obrigatório do preferencial e sublinha os verbos: «gerir», «liderar», «otimizar». Dizem-te que histórias vais precisar.

  2. Estuda o marketing atual da empresa

    Vê o site, os anúncios ativos na Biblioteca de Anúncios da Meta e no Centro de Transparência de Anúncios da Google, a página de LinkedIn e as últimas notícias. Aponta duas coisas que funcionam e uma que testarias.

  3. Monta um banco de seis histórias

    Um sucesso com números, um fracasso, um desacordo com outra área, um projeto com pouco orçamento, uma decisão difícil sobre a equipa e uma aprendizagem recente.

  4. Põe um número em cada história

    Custo de aquisição, conversão, receita, tempo poupado. Se for uma estimativa, aponta como lá chegaste para a poderes explicar.

  5. Ensaia em voz alta e prepara as tuas perguntas

    Conta cada história em menos de dois minutos, com um cronómetro à frente. Termina com três perguntas tuas sobre a função, a equipa e os objetivos do primeiro ano.

As perguntas que fazes tu

No fim, quase sempre te perguntam se tens dúvidas, e isso faz parte da avaliação. Boas perguntas: que objetivo tem a função no primeiro ano e como se mede, que orçamento e que equipa existem, o que aconteceu à pessoa anterior e o que não está a funcionar hoje no marketing.

Na primeira entrevista, evita perguntar só por férias ou teletrabalho. São perguntas legítimas, mas rendem mais quando já há interesse das duas partes. E se algo na conversa te deixou dúvidas, pergunta: também estás a avaliar a empresa.

Perguntas frequentes

Quantos exemplos STAR devo levar preparados?

Entre cinco e oito, que cubram um sucesso com números, um fracasso, um desacordo com outra área, um projeto com pouco orçamento e uma decisão difícil sobre a equipa. A maioria das perguntas responde-se adaptando um deles.

E se não tiver números dos meus resultados?

Estima-os com honestidade e explica de onde vêm, por exemplo uma ferramenta de análise ou um relatório interno. Se não houver mesmo forma de medir, conta o que mudou de forma visível: menos reclamações, mais encomendas repetidas, um processo mais curto.

Podem pedir-me um caso prático?

É habitual em funções com responsabilidade. Normalmente dão alguns dias e depois apresentas. Contam mais o raciocínio, as hipóteses e as prioridades do que o design dos diapositivos.

Como pesquiso a empresa antes da entrevista?

O site, os anúncios ativos na Biblioteca de Anúncios da Meta e no Centro de Transparência de Anúncios da Google, a página de LinkedIn e as últimas notícias. Assim podes falar do marketing deles com factos e não com suposições.

O que faço se me perguntarem algo que não sei?

Di-lo e raciocina em voz alta: o que sabes, o que te faltaria saber e como o descobririas. Inventar uma resposta nota-se e custa muito mais do que reconhecer um limite com um plano para o resolver.

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